A Rosa

arrasa o meu projeto de vida,
querida, estrela do meu caminho,
espinho cravado em minha garganta,
a santa às vezes troca meu nome,
e some nas altas da madrugada,
coitada, trabalha de plantonista,
artista, é doida pela portela,
ói ela, vestida de verde e rosa,
a rosa garante que é sempre minha,
quietinha, saiu pra comprar cigarro,
que sarro, trouxe umas coisas do norte,
que sorte, voltou toda sorridente,
demente, inventa cada carícia,
egípcia, me encontra e me vira a cara…
odara, gravou meu nome na blusa, abusa,
me acusa, revista os bolsos da calça,
a falsa limpou a minha carteira…
maneira, pagou a nossa despesa,
beleza, na hora do bom me deixa, se queixa,
a gueixa, que coisa mais amorosa, a rosa,
ah, Rosa, e o meu projeto de vida?
bandida, cadê minha estrela guia?
vadia, me esquece na noite escura…
mas jura que um dia volta pra casa,
arrasa o meu projeto de vida,
querida, estrela do meu caminho,
espinho cravado em minha garganta,
a santa às vezes me chama Alberto,
decerto sonhou com alguma novela
Penélope, espera por mim bordando,
suando, ficou de cama com febre, que febre,
a lebre, como é que ela é tão fogosa,
a rosa jurou seu amor eterno…
meu terno ficou na tinturaria,
um dia, me trouxe uma roupa justa,
me gusta, cismou de dançar um tango,
meu rango sumiu lá da geladeira…
caseira, seu molho é uma maravilha,
que filha, visita a família em Sampa…
às pampa, voltou toda descascada,
a fada acaba com minha lira,
a gira esgota minha laringe,
esfinge, devora minha pessoa,
a toa, que coisa mais amorosa…

- Chico Buarque